
40. "Deve ser aqui" (2/4)
eyedaaa
Description
Nos domingos deste mês, compartilho as partes de uma história curta. Quando terminar de escrevê-la – ou de reescrevê-la, já que esse texto é originalmente do fim de 2018 – talvez o título nem seja mais esse. Acontece que essa história pra mim se passa ao som de This must be the place e isso é algo que eu julguei muito importante de saber. <a href="https://inventario.substack.com/p/39-lendo-em-voz-alta-deve-ser-aqui">Ouça aqui a parte 1</a>.<br/><br/>--<br/><br/>Sua avó: privada do próprio nome na alfândega de uma nova vida, viveu em pé de guerra com elementos fundamentais da língua portuguesa. O fonema "nh" foi-lhe um mistério intransponível: ia sempre ao baniero. O neto mais novo, aquele manioso. Para o almoço, um prato de nioque. Um deslize fonético que, longe de causar vergonha, trazia a você uma ternura imensa, cada dígrafo suavizado como um abraço quentinio. Vovó e os números. Ela ligava atrás do filho e você dizia, já rindo, "tá aí com a caneta? Então anota o número". Acontece que ligar palavras a algarismos era impossível. Você mandava um beijo, combinava de ajudá-la a pintar as unhas dos pés dentro de algumas semanas e depois ligava atrás do pai no trabalho. "Liga pra sua mãe". Vocês riam porque tudo aquilo era muito bom.<br/><br/>Quem precisa mudar de idioma não raro desaprende a mentir. Pode-se atribuir à dinâmica das palavras. Naquelas fotografias, ela sorri um total de zero vezes – os dentes surgem anos depois, nas imagens impressas em papel brilhante. Com a viuvez, o pior acabou. Com frequência você a imagina de maiô e touca de natação: "sua vélea avó quis tanto saber nadar".<br/><br/>Não sabe como sua mente chegou até a avó de maiô. "Sua vélea avó" sempre pareceu ter a mesma idade, de tudo e de nada, e jama